desculpa pelo transtorno,

By Deyse Batista - maio 01, 2019

mas nós precisamos falar sobre doenças mentais.

A minha relação em expor aquilo que eu sentia ou que acontecia comigo sempre foi muito extremista: por vezes, eu expunha toda a minha vida; em outros momentos, me calava e preferia fingir que não tinha nada a dizer. No final das contas, pelo menos nos últimos tempos, eu não tenho parado para pensar sobre quem vai me ouvir ou sobre como isso vai acontecer. A única coisa que eu sei é que da mesma forma com que se fala de coração partido, está permitido falar sobre mentes partidas, porque uma coisa não é mais nobre que a outra e está mais do que na hora de as pessoas alheias que acham que não pertencem a esse mundo entenderem que, na verdade, nós todos vivemos em um mundo só.

Mesmo assim, demorou um pouco até que eu resolvesse falar sobre transtornos mentais. Assim que eu descobri meu diagnóstico, eu estava em crise demais para conseguir tocar no assunto. Era simplesmente impossível verbalizar qualquer coisa que fosse sobre transtorno bipolar, porque, tendo consciência da doença que eu tenho, eu não conseguia me sentir a vontade sequer comigo mesma. Demora muito até você conseguir se enxergar simplesmente como uma pessoa que tem uma doença ao invés de uma pessoa que é resumida a essa doença.

Até hoje, quando eu me olho, a primeira coisa que eu penso é que eu estou doente e um cura completa não está no meu cronograma de tratamento. Sei que meus sintomas não estão controlados, que ainda falta muito para eu atingir um nível de vida que seja considerado normal. Para complicar um pouco as coisas, preciso admitir que eu sou cheia de preconceitos contra mim mesma. Não raro, penso que sou um estorvo a todos à minha volta, que dou muito trabalho aos meus pais e ao meu marido, que ninguém vai querer ser meu amigo. 

Sempre penso que eu deveria estar no auge da minha produção profissional, trabalhando loucamente, estudando como se minha vida dependesse disso... Só que eu estou aqui, lutando dia após dia para conseguir ao menos levantar da cama, comemorando pequenas vitórias como conseguir sair para jantar ou por ter feito uma caminhada de trinta minutos. Hoje, o meu grande objetivo é resistir a mais um dia, tomar todos os meus remédios e torcer para que façam efeito e, eventualmente, encontrar algum prazer em alguma coisa.

Por muitas vezes, em sessões de terapia, me foi perguntado como eu me vejo e a resposta quase sempre foi a seguinte: sou um grande potencial desperdiçado. Eu poderia ser muita coisa, mas o transtorno bipolar aconteceu e hoje eu sou alguém extremamente limitada, cheia de obstáculos que a maioria das pessoas não enfrenta, em uma dúvida eterna entre continuar a viver e buscar me sentir melhor ou simplesmente desistir. Sendo bem sincera, essa é a minha resposta. Mas vocês concordam com o fato de que eu sou extremamente cruel e exigente comigo? Falta gentileza, empatia e compreensão nessa resposta. Eu posso ser isso tudo, sim, mas eu não sou só isso e com certeza não sou isso em maior parte.

Eu convivo com doenças mentais há pelo menos dez anos - não sei se há todo esse tempo com transtorno bipolar, mas com certeza com alguma doença. Mesmo assim, consegui me formar em duas universidades, trabalhar, constituir um relacionamento amoroso, fazer coisas que qualquer outra pessoa consegue fazer. Nenhuma doença foi impedimento até um ano e meio atrás, quando eu entrei na grande crise. Eu não sei mais quanto tempo ela ainda vai durar, mas tenho certeza que os poucos planos que eu tenho daqui para frente não serão atingidos por ela.

Eu ainda sou uma pessoa. Ainda tenho minha capacidade intelectual intacta, ainda tenho força física e meu lado sentimental está um pouco sensível, sim, mas quem hoje em dia não está emocionalmente um pouco ferrado? Meu raciocínio é perfeito e minha capacidade de sonhar é enorme. De vez em quando, eu sorrio e sinto uma alegria genuína, ainda que por poucos segundos. Sim, eu estou cheia de limitações. Sim, eu não produzo na mesma velocidade de antes, não sou mais tão alegre e proativa e meu nível de exigência comigo mesma beira ao insano. Mas eu não posso me descartar completamente, não posso ser a primeira pessoa a desistir de mim. Nós temos a obrigação de nunca desistir de nós mesmos.

Por isso tudo, eu não deixo que o medo de falar me domine. Desde que eu comecei esse blog, venho recebido muitas (de verdade, mais do que eu esperava) mensagens de pessoas me parabenizando pela coragem de me expor dessa forma. Eu fico feliz que esse meu ato seja visto como algo de coragem, mas, no fundo, ele é mais fruto de uma necessidade que existe dentro de mim de simplesmente falar, ser ouvida e, quem sabe, também ouvir outras pessoas. Existe uma vida com e apesar dos transtornos mentais e eu quero, através desse espaço, descobrir onde encontrá-la e como fazer para mantê-la.

Especificadamente sobre o transtorno bipolar, ainda existe um estigma muito grande, principalmente porque grande parte das pessoas insiste em pensar ou, por falta de conhecimento, acha que nós somos pessoas com dupla personalidade e que o convívio conosco é muito mais complexo que com qualquer outra pessoa com doença mental. Em outros termos: é muito mais fácil e aceitável se ter depressão, por exemplo, do que transtorno bipolar. Mas não é. Eu queria muito que o mundo não fizesse essa segregação até entre doentes mentais e parasse de separar aqueles com que é possível conviver daqueles que são completos inúteis.

Se você que me lê hoje está passando por algum problema parecido ou conhece alguém que está passando e não sabe como lidar, saiba que este espaço é tão de vocês quanto meu. A minha ajuda jamais substituirá a ajuda profissional, mas eu sei de todo o meu coração que encontrar alguém que conheça a nossa dor é reconfortante. Esse sentimento de reconhecimento em relação a algo que é tão tabu e escondido, é necessário diante de uma luta que muitas vezes é solitária. E nós não estamos sozinhos, não no que depender de mim.

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1 comentários

  1. Deyse, há dias que também me sinto mal e penso que podia ser bem melhor, que me acomodei no tempo e nas pessoas, e isso me dói muito, mas lembro e penso que eu sou assim e já dou muito do meu melhor. Tenho meu tempo, tenho minhas habilidades e qualidades assim como meu papel no trabalho,nas relações pessoais. Vamos nos amar como somos, porque temos nosso valor pra nós e pra muitos ao nosso redor. Você já faz diferença.

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