sobre meu status mental: eu tenho transtorno bipolar
By Deyse Batista - abril 28, 2019
Eu pensei muito no título de daria pra esse texto. Não queria que o termo "transtorno bipolar" aparecesse assim, logo de cara, por achar que dá uma seriedade desnecessária a algo que eu quero tratar com a maior naturalidade possível. Depois, pensei que não queria usar o verbo "ter" porque já estou cheia de preconceitos e estereótipos contra mim mesma e não gostaria de levar isso também às pessoas, não gostaria de pedir a elas que escrevessem o nome de uma doença mental e a fixassem na minha testa, não quero que me achem mentalmente incapaz, que me apontem o dedo e digam que me falta sanidade... Os julgamentos são muitos e inevitáveis e é claro que eles me atingem, porque não são sobre a cor do meu cabelo ou a roupa que eu estou usando, mas sim sobre o que eu tenho de mais importante na vida: minha condição mental.
Ocorre que, no fim das contas, não há outra titulação possível, a não ser que eu quisesse passar uma maquiagem em tudo e gastar o resto dos meus dias me perguntando o porquê de me esconder. Eu sempre gostei de trabalhar com a clareza das coisas e não há nada mais transparente do que simplesmente assumir o que eu tenho. Chega de me esconder. Chegar que suavizar as coisas pensando nos outros. Se eu quero me libertar do peso que tudo isso me traz, pois que a mudança comece de mim.
Pois bem.
Eu não sei como eu adquiri o transtorno bipolar.
Eu não sei como controlá-lo.
Mas eu, Deyse, tenho transtorno bipolar e única coisa que eu sei é como eu me sinto e é sobre isso que eu queria falar.
Há mais ou menos um ano, eu apareci no instagram com um texto que, na época, me quebrou a mente e o coração para nascer, porque tinha o intuito de falar sobre depressão. Até então, aquele era o meu diagnóstico e eu senti uma necessidade absurda de compartilhar esse fato, para tentar desmistificar algumas coisas sobre o assunto e tentar ajudar quem estivesse passando pelo mesmo que eu e que por ventura pudesse ser alcançado pelas minhas palavras.
De lá para cá, algumas coisas mudaram. Meu diagnóstico mudou. Demorou muito até que algum psiquiatra concluísse uma análise sobre o que eu realmente tenho e passasse a me considerar como uma paciente com transtorno bipolar. Isso não é demérito dos médicos que eu consultei, mas é total mérito da doença – ela sim é esperta, não à toa que eu venho perdendo miseravelmente todas as batalhas desde que nos encontramos.
Segundo meu diagnóstico fechado, eu tenho transtorno bipolar, atualmente em polo depressivo, o que significa dizer que o meu estado atual é como o de alguém em depressão. Aí que está a dificuldade da coisa: estar em depressão não significa necessariamente ter depressão, porque ela pode ser apenas um sintoma de um transtorno maior – no meu caso, é. Eu também sinto muita ansiedade, o que não significa que eu tenha o transtorno de ansiedade; tenho episódios que compulsão, o que não significa eu seja compulsiva, e por aí vai. No transtorno bipolar, você basicamente experimenta vários sintomas de varias outras doenças mentais, mas, no fundo, tudo é resumido em bipolaridade.
Porém, vamos a um fato importante: ter transtorno bipolar não significa que eu tenho duas personalidades. Eu sei que você pode ter pensado isso, porque eu também já pensei um dia, e está tudo bem. Eu, como bipolar, vivo a maior parte do tempo em um estado depressivo, e é por isso que o diagnóstico é tão difícil e muitas vezes confundido com a própria depressão. A diferença existe basicamente no fato de que o bipolar tem oscilações de humor muito grandes: há o momento da depressão e da mania, que basicamente são a tristeza e a euforia extremas. São dois pólos muito perigosos, apesar de a maioria leiga das pessoas acharem que está ótimo o bipolar viver em uma crise maníaca. Não é bom viver em nenhum dos extremos e não é em vão que o transtorno bipolar é a doença mental que mais causa suicídios no mundo.
Esses estados vêm em forma repetitiva, como em um movimento cíclico sem ponto de começo ou de término. Você pode ir do céu ao inferno em questão de segundos ou simplesmente ficar estacionado em um dos dois extremos, mas a certeza é uma só: você está vivendo no seu limite e, a qualquer momento, não vai aguentar mais. Nada disso significa que eu sou duas pessoas, mas sim que eu sou uma única pessoa que muda de humor sem motivo racional e sem que eu possa controlar – mas no fundo, dentro de mim, eu continuo sabendo exatamente o que está acontecendo e continuo lutando para que todas essas emoções não explodam a mim mesma e a tudo que estiver pelo caminho.
Ter transtorno bipolar é solitário. Ninguém quer ter esse tipo de pessoa por perto, não é? As pessoas cansam de você na mesma velocidade em que percebem que você pode não ser ou agir exatamente da forma que elas pensam ou esperam que seja. Quem quer ser amigo de um bipolar? Ter paciência com ele? Entendê-lo? As pessoas se vão na medida em que o diagnóstico chega. E dói, né? Dói ser sozinho e não ter ninguém que faça o mínimo de esforço para te entender, porque, às vezes, tudo que você precisa é de alguém para te puxar para fora da cama, te fazer companhia, te dar um abraço.
Mas o que as pessoas fazem? Te criticam, te mandam tomar remédio e fazer terapia; te julgam e te condenam por atos que quase sempre você não tem o menor controle e pelos quais você mesmo já está se culpando. Ninguém quer saber de te acolher, de ser minimamente empático ou compreensivo. E depois, quando a pessoa sucumbe ao transtorno e se mata, muitos vão chorar dizendo que não conseguiram ajudar o suficiente, quando, na verdade, o mistério da ajuda está simplesmente em não abandonar ou esquecer.
Transtorno bipolar é uma doença extremamente difícil de se conviver. Não tem cura, tem pouco controle e quase nenhum tratamento. A maior parte dos remédios (aqueles que muitos julgam resolver todos os problemas) causam efeitos colaterais horríveis – não é a toa que eu engordei 25 quilos nesse processo todo. É um assunto sobre o qual eu pretendo falar depois, mas, desde já, basta dizer que a minha inexistente autoestima foi pisoteada por algo que deveria fazer eu me sentir melhor. Isso é um lixo, uma vida injusta e difícil. Mas é uma vida. É a que eu tenho e só me resta fazer o melhor possível com ela.


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