Na primeira vez que eu fui a uma psiquiatra, em outubro de 2017, ela me diagnosticou com transtorno de ansiedade e disse que após seis meses de tratamento eu estaria novinha em folha. É quase cômica a quantidade de coisa de mudou de lá para cá. Hoje, eu não tenho mais um transtorno de ansiedade como diagnóstico, mas apenas como sintoma de uma doença mental muito maior e assustadora. Não tenho prazo para ficar boa; na verdade, não existe cura declarada no meu caso, mas sim um acompanhamento eterno com psiquiatra e psicólogo, profissionais esses que me ajudam a controlar os sintomas e a conviver com eles.
Diante desse prognóstico nada otimista, confesso que quando olho para as minhas receitas médicas e me deparo com as minhas limitações, me pergunto seriamente se ou quando eu vou poder voltar a ter uma vida normal. Eu sei, talvez seja um pouco estranho falar em vida ''anormal'' quando, na realidade, meu problema é psicológico, e não físico, mas acreditem, tem coisas que a minha cabeça me impede de fazer tal como me faltasse um braço ou as duas pernas e eu não tivesse nada para substituí-los.
Não é à toa, mas sim por causa de muito sofrimento, que eu não consigo ficar em casa sozinha, que não consigo trabalhar ou estudar, que não posso sair sozinha e, mesmo quando saio acompanhada, não consigo ficar fora de casa por muito tempo. Eu ainda não voltei a trabalhar, não limpo a minha casa ou cozinho minha comida e tomar um banho pode se tornar um enorme peso. A normalidade é absurdamente relativa, mas saibam que eu gostaria de acordar um dia e não encontrar dificuldades para ao menos escovar os dentes.
Eu tenho todos esses medos e preciso enfrentar obstáculos tão simples (mas tão desafiadores) diariamente, mas, apesar de tudo, existe uma mágica que se realiza ao final de cada dia: eu ainda estou aqui. Eu sobrevivo. Não sei como, não sei a partir de qual força, mas eu ainda estou aqui. E todos os dias eu tomo a decisão de permanecer aqui por mais uma manhã, uma tarde, uma noite, uma semana, um mês. Eu passo o dia inteiro me criticando e sendo cruel comigo mesma, mas, no fim das contas, o que vale de verdade é a minha capacidade de permanecer viva e traçar isso como o maior objetivo.
É muito difícil, nesse grau de doença, encontrar justificativas para permanecer firme e forte, principalmente se estas forem buscadas dentro de nós mesmos. Chega a um ponto em que aqui dentro tudo é confuso e cheiro de escuridão, então não é seguro habitar dentro de mim. Mas ao meu redor existem e sempre vão existir coisas lindas e verdadeiras pelas quais lutar: a família que eu amo e não desiste de mim, os planos que podem até não fazer muito sentido agora, mas que um dia fizeram e é disso que eu tenho que me lembrar sempre, e os sonhos que eu sei que uma parte de mim um dia sonhou.
Tudo isso pode parecer um pouco irreal ou pode mesmo parecer que são coisas das quais eu desisti, mas eu sei que dentro de mim, lá no fundo, naquele pedacinho que está escondido com medo e sofrendo, eu ainda quero tudo isso. Eu ainda quero viver uma vida longa e feliz com quem eu amo. Eu ainda quero abrir meu próprio negócio, ainda quero viajar pra Disney, ainda quero comemorar meus 30 anos, ainda quero, principalmente, recuperar todo o prejuízo que essa doença me causou. Eu ainda quero todas essas coisas, mesmo que hoje, superficial e aparentemente, eu não queira mais nada e tenha medo de tudo. O fato de eu não conseguir sonhar hoje não significa que nunca mais vou conseguir e muito menos que os sonhos não existem mais. Eles estão aqui, dentro de mim, adormecidos de tristeza, mas ainda são meus sonhos e eu preciso batalhar por eles.
Eu preciso honrar a pessoa que um dia eu fui. Se um dia eu voltarei a ser a pessoa que traçou todas essas metas de vida? Sinceramente, eu ainda não sei. Talvez um dia eu apenas melhore, mas jamais volte a ser a mesma - como voltaria, tendo passado por tudo que eu passei? Mas daí, caso isso aconteça, eu posso buscar novas coisas pelas quais sonhar. Ou posso simplesmente ainda quer, mesmo sendo alguém diferente, realizar tudo aquilo que um dia eu quis antes. Ou talvez aconteça alguma coisa que eu não consigo nem imaginar, mas está tudo bem, porque o importante é estar viva tempo suficiente para viver isso tudo.
Se eu pudesse falar qualquer coisa a qualquer pessoa que passe por algo semelhante ao que eu passo, eu precisaria dizer: recupera a sua capacidade de sonhar. Ainda que você não saiba como esse sonho vai ser realizado, ainda que pareça distante e até pouco atrativo no momento, mas busque algo que alguma parte sua queira ou um dia quis muito e trace isso como meta. Não se permita cair enquanto esse objetivo não for alcançado porque, no dia que ele for, a alegria por trás de um sonho realizado pode ter o poder de curar muita coisa que existe de ruim no nosso coração. É nisso que eu creio. É isso que eu faço e, se perguntarem qual a minha maior terapia hoje em dia, eu vou dizer que é tentar sonhar com algo que eu preciso me manter viva para ver virar realidade.
Como eu vou me permitir nunca mais sair da cama antes de conseguir fazer tudo que está na minha lista de coisas a fazer antes de ter filhos? E como eu vou ter filhos se eu simplesmente desistir hoje? Eu não posso desistir da minha lista de realizações. Eu sou teimosa e orgulhosa demais para simplesmente jogar uma vida inteira fora em troca de... mais dor? Mais sofrimento? O absoluto vazio? O meu mantra de antes, o "eu não consigo", agora deve ser lido positivamente, no sentido: eu não consigo desistir de tudo que um dia eu sonhei. Eu não consigo abandonar tudo. Eu não consigo deixar essa escuridão vencer e abrir mão de toda a luz que pode preencher a minha vida.
A verdade é que todos nós que temos doenças mentais precisamos aprender a ser mais gentis com nós mesmos. O mundo pode parecer cruel e as pessoas, maldosas, mas, no fundo, a primeira pessoa que precisa mudar a forma com que encara essas dificuldades sou eu e é você. Então, saiba que eu sei que tudo parece muito meio sem sentido e que parece que cultivar qualquer tipo de esperança nesse momento é em vão, mas, de alguma forma, dia após dia, pouco a pouco, nós precisamos parar de nos cobrar tanto e entender que estamos dando o nosso melhor. Você está fazendo o seu melhor. Pode não ser o suficiente hoje, mas é tudo que você pode e é o melhor que você consegue.
O nosso maior problema é a pressa e a vontade de fazer o máximo, como se apenas o máximo adiantasse, sendo que fazer o mínimo também já é alguma coisa. Nem sempre é possível fazer tudo de uma vez, nem sempre é possível fazer apenas o certo. Mas fazer um pouco hoje já te tira da estaca zero e o importante é sair desse maldito zero. O importante é ir, porque no futuro você vai se orgulhar de ter começado e porque o tempo vai passar de qualquer forma. Então, se perdoe por não ser exatamente aquilo que você queria e se aceite com o pouco, que na verdade é o tudo que você pode. Ninguém é menor por poder se dedicar apenas 10% e, se é isso que você pode dar, pois dê.
É isso que eu faço. Foi assim que eu sobrevivi todos os dias até hoje e é assim que eu pretendo chegar muito mais longe, porque nos meus sonhos não cabe o universo em que eu fico para sempre do jeito que eu estou.




